6º CONAHP – Cong. Nacional de Hospitais Privados

Quando a tecnologia é o “x” do problema

Os caminhos abertos pela tecnologia da informação na área da saúde não são novidade. Porém, usá-la e aplicá-la da melhor maneira tornou-se uma questão de vida ou morte para instituições e profissionais da medicina.  Por conta dessa demanda, o tema “Transformação digital: reinventando a operação e a administração na saúde” foi abordado pelo 6º CONAHP (Congresso Nacional de Hospitais Privados), realizado em São Paulo no último dia 7.

Antonio Carlos Onofre de Lira, superintendente de Tecnologia de Informação da Seguros Unimed e um dos debatedores do congresso, acredita ser inexorável a utilização da tecnologia, mas faz um alerta: “Há muito mais um aprendizado de um processo gradual de uso da tecnologia do que a promessa de uma tecnologia que resolva todos os nossos problemas”. O médico Chao Lung Wen, chefe da disciplina de Telemedicina da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), aponta a necessidade de “fazer uma reorganização do sistema de saúde como foi feito no sistema bancário”.

Chao Lung Wen

Segundo Lira, embora a tecnologia seja uma ferramenta muito importante, trata-se de um acessório auxiliar de um projeto com intencionalidade de melhoria de busca de qualidade, de processos de trabalho e de qualificação de estruturas. “Os processos repetitivos e rotineiros das entregas de medicação, por exemplo, têm um grau de automação muito grande. Sempre haverá uma separação, um processo de qualificação do que foi separado, um encaminhamento específico para algum local específico. E isso é bastante possível de ser automatizado com um grau de segurança bastante alto, o que a gente já tem conseguido particularmente nos módulos de prescrição eletrônica e de distribuição de medicamentos”, afirma.

Remetendo-se ao exemplo dos protocolos digitais, que admitem uma boa prática possível de ser relembrada para ser sugerida a um profissional, o superintendente da Seguros Unimed entende que o médico não acredita que um protocolo digital possa substituir totalmente a sua decisão um profissional. “Isso ocorre porque existe uma complexidade na área da saúde – e uma peculiaridade de nossa área é a complexidade -, que não pode ser banalizada nesse possível processo de automação total. Eu sou da área da tecnologia de informação em saúde há 28 anos e acredito nela. Mas ela tem limites”, afirma.

Lira frisa ainda a importância da preparação dos profissionais em uma área como a medicina, que tem um saber específico dentro da área de tecnologia em saúde e, particularmente, no tocante à tecnologia em saúde. Este saber, segundo ele, está sustentado sobre três pilares. O primeiro é o conhecimento em saúde; em seguida, vem o conhecimento em gestão e, finalmente, um conhecimento em tecnologia de informação em saúde. “Não basta eu ter um domínio profissional, uma capacidade de montar um processo de inteligência artificial, caso eu não possua uma boa noção de qual é o sentido da tecnologia tanto do ponto de vista técnico quanto do ponto de vista de eficiência”, afirma.

‘Cantos de sereia’

O superintendente da Unimed aponta ainda para os riscos do que classifica como “cantos de sereia” da tecnologia. Segundo Lira, há uma onda de consumo que descobre em certos softwares e aplicativos o que acredita ser algo perfeito para resolver determinados problemas. “Se a gente não tiver um mapa estratégico que nos mostre quais as etapas importantes, prioritárias, não podemos nos arvorar a ter um aplicativo que saia anunciando um diagnóstico de um paciente se, de base, eu não tiver um bom registro ou um sistema bem estruturado para o registro do diagnóstico do paciente. A tecnologia fica a serviço de uma estratégia, de um processo planejado em busca da prestação de serviço para uma saúde de qualidade”, diz Lira.

Lira e Lilian

Lilian Hoffmann, superintendente executiva de TI da Beneficência Portuguesa, também aposta na moderação para a utilização das ferramentas digitais na medicina. Um dos aspectos abordados por ela é como explorar da melhor maneira possível o prontuário eletrônico e propiciar ao paciente o acesso aos dados sobre seu estado de saúde. “A saída é criar mínimos produtos viáveis, que possam mostrar o que a tecnologia faz. Temos que pensar onde ganhar eficiência”, afirma.

Eficiência. Esta é a palavra-chave para Lung Wen. O professor da USP não tem dúvidas de que o sistema digital veio para ficar e que as estruturas que não reorganizarem seus serviços perderão competitividades. Para tanto, utiliza o exemplo dado pelo sistema bancário, que no ano de 2015 reorganizou o conceito do provimento do serviço financeiro e inventou o internet banking, caixas eletrônicos, e reestruturou seu processo físico fazendo com que seus usuários precisassem ir menos às agências.

Nós teremos outra missão no futuro próximo: reorganizar o sistema de saúde. A telemedicina seria equivalente ao internet banking; e o home care e o telehomecare, equivalentes ao sistema de caixa eletrônico.  Com isso, nós desafogaremos a estrutura física dos hospitais para desenvolver um modelo melhor  de atendimento, um modelo mais eficiente”, afirma.

Para ele, há uma tendência crescente de que as pessoas não queiram mais ser pacientes de um médico, mas de uma instituição. Assim, caso um hospital gerencie bem o sistema tecnológico, conseguirá fidelizar seus pacientes e, assim como fizeram os bancos, romper a barreira do limite físico. “Por exemplo, um paciente de São Paulo que está em Porto Alegre e viaja para os Estados Unidos pode, apoio com a interatividade, interagir com seu médico do hospital e ter um. A telemedicina e a tecnologia vieram para reorganizar o modelo”, explica.

WhatsApp

Mas nem tudo é um caminho florido, pois pode haver alguns tropeços. Para Lung Wen, um deles é a utilização de aplicativos como o WhatsApp na relação profissional entre pacientes e médicos para o envio de receitas. “O problema é que ele (WhatsApp) ainda é usado de uma forma caótica e desorganizada”. O médico refere-se ao excesso de utilização do aplicativo, que eventualmente pode produzir falhas em suas mensagens.

O WhatsApp é um documento escrito. Uma conversa telegráfica e objetiva. O médico tem que ser treinado para usar o aplicativo com mensagens sem dualidades. O problema é o corretor gramatical do aplicativo, que pode alterar o significado das palavras. Por isso, se o médico não ler com calma, pode estar enviando uma documentação de uma conduta excessiva e errada”, afirma. Frente a isso, segundo ele, o médico deve esclarecer ao paciente que, apenas em momentos nos quais ele seja momentaneamente um caso especial, poderá usar o aplicativo como complemento nesse período.

Na próxima consulta presencial, o médico avaliará para determinar se continua havendo a necessidade do uso do WhatsApp. O médico tem que saber preservar o tempo  dele para a garantia da qualidade”, afirma. De acordo com Lung Wen, a solução para sanear problemas causados pelo uso errado da tecnologia é o aprimoramento dos próprios profissionais da medicina.

Cabe ao médico, individualmente, desenvolver seus talentos para atingir o nível de qualidade. Haverá uma tendência de que os pacientes acreditem em um padrão de qualidade de uma marca institucional. O médico tem que se adaptar a uma nova realidade para exercer uma medicina mais precisa, preditiva e personalizada”, finaliza.

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